quinta-feira, 26 de abril de 2018

ENTREVISTA: com a palavra, Eleanor

Eleanor chegou em Taipas no início dos anos 90. Havia mato para todo lado, a rua era de barro, poucas pessoas já estabelecidas. Tempos depois montou uma mercearia, servindo de abastecimento rápido para os moradores da região, que não precisavam se deslocar por vários minutos para chegar no mercado mais próximo. A sua casa em específico foi demolida no início de 2015.
Todos os nomes foram alterados.

As palavras foram registradas em meados de setembro de 2014. Todos os nomes são fictícios.



Mapa 1 - imagem de satélite da região de Taipas (Jaraguá, SP) no ano de 2009






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Fonte: GOOGLE EARTH, 2018


Nossa, por que eu vim? Casei, né, e como casa, quer uma casa. Compramos o terreno aqui. 95. Aí a gente só pôde se mudar em 97, porque até construir tudo… Quando a gente veio pra comprar o terreno eu achei que não ia me adaptar aqui porque além de ser tudo muito longe, a rua era de terra, não conhecia ninguém, tudo muito difícil. Mas aí meu sogro deu a ideia de fazer um comercinho, porque tudo aqui era muito longe, e aí meu marido trabalhava na época numa padaria, pediu as contas e montamos o comércio em 97. Viemos pra cá e desde então criamos os filhos com o comércio. A vizinhança, no começo, era uma casa aqui, outra casa ali, mas depois de 98 foi povoando mais. Aqui embaixo nessa rua fizeram um loteamento e vieram muitas pessoas morar, acho que cerca de 100 famílias, no qual já foram despejadas agora em março (de 2014). Mas desde então tinha mais ou menos quase 400 pessoas. Se você contar que cada casa tinha mais de duas pessoas… Era muito grande a população.
Mapa 2 - imagem de satélite da região de Taipas (Jaraguá, SP) no ano de 2017







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Fonte: GOOGLE EARTH, 2018

— Você viu o bairro crescer, se tornar um bairro grande.
— Ali (embaixo) é Vila Ana Rosa, aqui (em cima) é Estância. E a dona Elen, que era a primeira moradora (vai fazer mais de trinta anos que ela morava aqui. A casa dela está ali destruída) poderia falar melhor até do começo da vila toda. Era ela e seu Leão, foram um dos primeiros a sair, também. Fazia mais de quarenta anos seu Leão, e na época que o Rodoanel veio pra dar a notificação que ia sair tudo, ele ficou até doente. Ele já era uma pessoa de idade, acima de 65 anos. Então teve esses problemas. E a pessoa que fica mais de quarenta anos num lugar não quer vender sua casa. A questão da desapropriação do Rodoanel é isso: a gente (moradores) não quer vender a casa. E eles vêm e falam… A gente nem dá preço na casa, eles vêm e dão o preço. Essa é a questão. Porque se você quer vender a sua casa é diferente. Sabemos que aqui não é melhor lugar do mundo, mas é a casa que temos, que construímos. Temos vizinhos que já são parte da família porque vários já vimos nascer, crescer, casar. Muitos daqui a gente viu isso. Eu mesmo vi várias meninas aqui que saíram da escola, vi se formarem na faculdade, já tem suas casas. E é difícil, você ter a sua casa, lutar pelo que é seu e aí vem o governo e fala “não, eu vou tomar porque é para o bem público”. A gente não é contra o bem público. Tudo bem, o Rodoanel vai passar, mas valoriza o que a gente tem, valoriza o trabalho que deu pra isso. Fora que as crianças que estudam, as crianças têm suas turminhas de escola, já tem aquele grupinho, aí você vai tirar tudo. Além de tirar casa da criança, vai tirar a escola da criança, amigos da criança. É uma situação que tá sendo muito difícil. A especulação imobiliária tá lá em cima, agora. Uma casa ali valia 100 mil, colocaram pra 200, 300 mil. E aí? E eles não querem valorizar a nossa casa! É isso que é revoltante.


— Essas casas que não estão demarcadas para desapropriação, você diz, né?

— É. Então, as que não vão sair seriam da (Avenida) Cantídio para lá, porque disseram que da Cantídio pra cá não vai sair agora, mas em algum momento tem outro projeto… Ferroanel? Que aí vai repassar… Então quem ficar aqui ainda não vai sair agora, mas num momento próximo vai. Eis a questão. Eu estava vendo casa no Rincão, Panamericano e antes se você falasse que queria comprar uma casa com 200 mil você comprava uma casa boa. Hoje não está dando porque eles acham que “ah, você tá saindo pelo Rodoanel deve estar ganhando milhões”. Não é possível, porque as casas que a gente tá vendo não tem noção de preço mais. E eu, como meu marido tem um bar ali embaixo, não queria ir para longe. Minha sogra, meus cunhados moram tudo por aqui, então não tem como ir pra longe. E a especulação imobiliária no momento está alta. Que que a gente resolveu fazer no momento: quando vim a ordem do juiz eu vou ter que… minha casa tem cinco cômodos, e eu vou ter que ir para um lugar que tem dois cômodos! Vai ficar meus três filhos nesses dois cômodos até o dinheiro (da casa e do terreno) sair porque ainda tem essa questão. Porque nós ajuizamos, corre o risco de a gente sair da casa, aí vai demolir a casa, e você não recebe o dinheiro. E a DERSA tem de um a sessenta dias pra depositar o dinheiro na conta.

— Ou seja, tem um período aí que fica descoberto…

— Fica descoberto e aí como você vai comprar uma casa? A pessoa que tá vendendo a casa quer o dinheiro na hora. Ela não quer saber se você tá sendo desapropriado ou não. Ainda tem essa questão.

— Esse casal de senhores que saíram daqui foram os primeiros, né, a ocupar o lugar… Você sabe para onde eles foram?

— Seu Leão e a mãe da Maria estão morando ali perto do Rincão, Shangri-la. A questão é: eles estão hoje morando até num lugar melhor. Mas de ele ficar doente foi mais pelo estresse que a desapropriação causa, de não saber onde ir, de saber se ia tirar o dinheiro ou não. E eles não foram nem pra Justiça. Eles aceitaram o acordo da Dersa. É igual ao seu Renato ali. Ele mora aqui há muitos anos e hoje quem vê o seu Renato vê como ele está doente, chega a estar pálido. Quando cheguei ele já morava aqui, acho que faz mais de trinta anos que ele mora aqui. Seu Renato era muito forte e hoje em dia a gente vê e meu Deus! É o estresse… Porque a gente pode até falar “ah, eu vou pra um lugar melhor”, eu tenho essa fé, mas a questão é esse estresse de você não saber quando vai receber, se vai receber.

— Fico pensando se esse estresse não passa também por perder, de certa forma, um pedaço, uma história do bairro e tal.

— Tem tudo isso. Porque quando você constrói a casa tem sempre história, seu filho nasce, cresce. Acho que seu Renato, ele trabalhou muito tempo como cozinheiro, aí vinha um monte de gente de fora pra comer (no bar dele). Tinha dias que a rua aqui enchia de carro porque ele cozinha muito bem. E aí, de repente, ele foi mandado embora e qual era a perspectiva de vida dele: montar ali um restaurante e ficar com os amigos. Aí vem o Rodoanel e quebra essa perspectiva de velhice. Ele achou que ia ficar aí a velhice toda, e aí quebrou. Tiraram isso dele, essa perspectiva de vida dele. 

— Você sente uma mudança de ânimo antes e depois do Rodoanel na população daqui?

— Ah, totalmente. Desanimo é total. Aqui onde as crianças… Ó, e meus filhos mesmos cresceram andando de bicicleta aqui na rua. O Rodrigo e a Helena andaram na rua, jogando bola e tudo. E aí depois (com) o aumento da população foi se resguardando, né. Minha pequena (filha mais nova) não anda mais assim porque agora tem muita gente… Com essas casas abandonadas, tem muita gente estranha agora. Eu tenho medo da minha filha de quinze anos subir sozinha aqui sete horas da noite! E antes não tinha esse medo. Porque todo mundo conhecia todo mundo. E agora não, porque com essas casas abandonadas vêm muitas pessoas de fora pegar ferro, os entulhos que ficam para vender, e querendo ou não trocar por droga. Eu vejo cada um, Jesus… E eu mesma: antes eu ficava com o bar (aberto) até oito, nove horas da noite; hoje não fico, a partir das seis horas já estou fechando porque pessoas muito estranhas estão passando aqui. As pessoas que a gente conhece sabem que não fazem mal. Mesmo as pessoas usuárias (de drogas), elas usam e cada um fica na dele. Usa, né, cada um cada um. Não faria mal para ninguém. Agora vem uma pessoa que você não conhece, quem vai te garantir que ela não vai fazer mal. Às vezes a droga sobe, muda a pessoa completamente. Então não tenho mais segurança de deixar minha filha voltar sozinha. Então ela vem até o bar do pai dela e o pai a traz. E antes não precisava disso, andava completamente sozinha. Meu filho também. Ele tem vinte anos, desce e a gente fica “Rodrigo, olha para um lado, olha para o outro bem ates de sair pra ver se não tem alguém na rua” porque está difícil. Tem que estar um cuidando do outro aqui. Quando encosta carro diferente a gente já fica na expectativa da onde é, quem é. Porque vê agora as casas vazias e estão roubando… A gente não. Todo mundo conhece todo mundo, sabia que carro era de quem, era uma segurança maior. E você agora não vê mais… antes vinha um policial ou outro, raramente. Mas agora nem raramente tá subindo polícia aqui… Não passa mais a ronda. Agora que precisaria melhorar a segurança, foi tirado. Estamos a Deus dará, como se diz. Parece agora que o processo não anda, está parado, e aí ficamos nessa expectativa… sem nada, sem segurança, sem nada.




— E o pessoal, como se conhece há muito tempo tem uma amizade, uma relação, esse tema do Rodoanel tem sido discutido entre as pessoas, vocês tem feito algum tipo de algum tipo de reunião com o pessoal aqui para discutir tudo isso, os acordos da DERSA? Ou cada um está negociando individualmente?

— Ah, já. Como lá embaixo não tinha escritura, o pessoal se juntou e conseguiu um valor maior, cada um conversava com outro. A união deles lá embaixo foi maior. E aqui em cima, por termos essa escritura, essa matrícula, se tornou tudo muito difícil, desde a valorização até a comunicação, porque um vizinho fica “ah, não vou falar meu laudo”, por exemplo. Não o nosso porque todo mundo sabe, porque são oito casas, e aí cada um… A DERSA falou pra todo mundo. Mas aí, por exemplo, eu não sei o que a outra lá recebeu. Se tivesse tido uma união maior no começo eu acho que ficaria um jeito melhor, não precisaria ir todo mundo para o juiz. Mas ficou nessa expectativa: como a DERSA deu um valor muito baixo pra todas as casas, as pessoas se retraíram, não quiseram mostrar, não quiseram falar um para o outro; ficou um clima tenso, de desunião, sabe. Porque um não queria mostrar o laudo pro outro, com vergonha até. As casas foram muito desvalorizadas pela DERSA, pela desapropriação. Se não tem a matrícula, se não tem a escritura, a sua casa é valorizada! Esse processo não dá pra entender, e pior é que está lá na lei. É uma lei que tem pra desapropriação, “pago isso e isso pela desapropriação”. Agora se for pelo reassentamento, se sua casa não tiver escritura, você vai pra um reassentamento, aí valoriza até a fechadura da porta. O que acaba acontecendo: as pessoas vão procurar um lugar agora e não vão nem se ligar se tem escritura ou não, porque sua casa tá valorizada (sem) escritura. Vai ser regularizada por quê? O meu comércio tem documento, e eles não vão pagar o comércio. Pra pessoa que não tinha o documento, eles pagaram. Dá pra entender esse país? Se você anda regularizada, você não tem valor; se você não anda, anda na clandestinidade, aí você tem valor. Essa é a questão que a gente fica indignada. Dá uma indignação total. E aí você fala o que pro seus filhos? Você vai andar certinho, pagando, igual eu pago… pago taxa de comércio, da Prefeitura, e sou isenta em outro negócio do IOF, mas ando direitinho, e aí não tenho o direito. Você fala o que pro seu filho? Você vai continuar no errado ou continuar no certo? Se você for pra clandestinidade você vai ter valor. Eis a questão pra pensar: o que essas leis do nosso país estão mostrando.

— Ana, quem são as pessoas que moram aqui no bairro? São pessoas que vieram de onde, trabalham com o que, de maneira geral; se você pudesse falar “bom, esse é um bairro que tem tais tipos de pessoa”, quais são as pessoas que moram aqui?

— Acho que a maioria veio do Nordeste para trabalhar, formar suas famílias aqui, e pensar um dia em voltar e tal. As trabalhadoras, tem vários trabalhos, tem desde de alguém que é advogado, Bruninho é contador, tem um professor, uma dentista, tá tudo misturado. Mas são pessoas todas do bem. Uma pequena parte que a gente chamava aqueles de nóinha e tal, mas eles são pequenos grupos, eles estão ali no grupo deles, você passa e eles não mexem. São daqui mesmo, cresceram aqui.

— E seu bar vende o que aqui? Você trabalha exatamente com o que aqui no bar?

— Esse vende mais mercearia, coisas como pão, leite, arroz… Como a gente mora muito longe, às vezes é uma coisa rápida e a pessoa não quer ir num mercado: “ah, acabou o açúcar, vou ali na Eleanor”. E eu ainda uso a caderneta! Não tenho cartão, ainda. As meninas falam “ah, vou passar o cartão”, “ainda não”. Bem que queria mesmo, mas esse negócio do Rodoanel desanimou, então ainda não temos essa do cartão, não passa cartão, mais a caderneta. Eu confio mais na palavra da pessoa, ainda tem esse sentido de acreditar mais na palavra das pessoas do que nos documentos exigidos. É mais na parte da confiança. Tinha muito mais fregueses aqui. Eu criei meus três filhos sem precisar sair de casa, sem trabalhar fora.


— Como é que você imagina que o Rodoanel impacta, por exemplo, do que ficar do bairro, o que não for sair?

— Acho que mais poluição, tanto sonora como do ar. Porque aqui a gente ainda tinha essa vantagem de respirar ar puro por causa da mata, e fora que a mata tem muitas nascentes de água. Nossa, tinha bichos, macacos, aqueles macacos grandes que vinham aqui no sítio. Que que vai ser desses bichos? Acho que o impacto ambiental será tremendo, e não acho que vai ajudar o bairro, o Rodoanel. Vai desvalorizar mais pelo barulho. E desde o começo, né, pelo barulho das máquinas, já prejudica muita gente. Desde os carros passando, a fumaça, os caminhões; as crianças que forem ficar, acho que vai prejudicar muito mais a saúde. E não sei qual vai ser a política deles que eles vão usar com esses bichos que vão ficar, porque vai ficar difícil. Quando sairmos, se o pessoal não vai invadir também…? Tem essa questão. Depois que souberam que aqui embaixo valorizou mais do que aqui (em cima), as pessoas já invadiram ali em cima, né, a mata. Chegaram a tacar fogo aí na mata. Esses dias estava um fogaréu aí, a gente está achando que tão querendo invadir, e disso eles não tomam providência. Qual que vai ser a reação deles agora? Tirar a gente da casa é fácil.  As pessoas que vão querer invadir, e os animais, os bichos que tinham aí, tem muito bicho. É que eles ficam lá dentro, gente… Tem muitos macacos, aquele macacão grande, são grandes aqueles macacos. E agora na época da primavera eles vêm comer frutas ali no sítio que tinha final da rua. Tinha um sítio muito bonito aqui no fim da rua, que já foi destruído pela DERSA. Tinhas vários… Até falei para a dona que ia pegar umas plantas pra guardar e acabei não pegando… Esse sítio: os meus filhos, fiz o aniversário de três anos. Ia ser uma história e tanto para guardar. Do Rodrigo eu fiz em 97, fiz o aniversário dele de três anos; da Helena; e da minha terceira filha, que pedi pra dona Maria. Tá guardado na memória os três filhos no mesmo sítio… três anos.

— E aquelas casas destruídas, quando você passa…?

— Nossa, dá uma dor no coração. Porque quando as casas foram… Você vê a casa sendo construída, sabe, você vê aquela pessoa ali, seu Castro, vi construindo a parte de cima da casa dele. Aí de repente vem a máquina e passa um segundo e já quebra tudo, nossa, dá uma dor no coração! E a gente fica imaginando “nossa, daqui uns dias vai ser a minha. Será que eu vou ter essa vontade de ver?”. Não, né… Acho que não. Vai doer muito você ver sua casa ali de anos… A minha casa foi… umas das primeiras… essa parte de baixo, esse bar foi construído pelo meu sogro, que morreu! Então você fala “nossa, o trabalho do meu sogro vai todo ali pro chão!”. Porque se você vendesse, não, né, você podia ficar passando e “não, aquela casa ali, ó, seu avô que construiu”. Conta para os filhos isso também, tem toda a história da casa. Às vezes a pessoa deixa de comer pra construir, pra passar cimento e tal, e aí, quando você vê a casa no chão, gente, que dor no coração que dá! Essa casa verde aqui eu nem quis ir ver… Não a do Eduardo sendo destruída. É muito rápido. Você passa anos da sua vida comprando tijolinho, material, acabamento, aí vai ver e num segundo aquele peso enorme… colocar no chão. Nossa, é muita dor. Hoje em dia você vai comprar material, nossa, a mão de obra… Tá tudo muito caro. Isso que não tá valorizando… Quando a dona Elena mudou eu chorei; Vera mudou eu chorei… eram umas freguesas muito queridas, e colegas que eu vi a criança nascer e vai embora assim. É muito difícil. Uns dias atrás a dona Elena ainda veio, a Vera, nossa, chorei mesmo. E agora a Beatriz tá pra sair, eu falei que não quero nem vem o dia que ela vai mudar, porque eu vou chorar mesmo. Vi as filhas dela, os filhos dela, os três nascerem, crescerem. Vai ser um tormento. Vou falar para ela que queria ir embora antes dela… só para não ver ela indo embora. Vai ser diferente, ela vai embora primeiro.



— Como você acha que vai ser morar em outro lugar e conhecer, ir se acostumar em estar outro bairro…?

— Também isso está nos preocupando, porque pelo menos aqui as pessoas conhecem a gente, temos uma segurança maior, né. “Ah, filho da Eleanor, filha do Carlos”, então não mexe… meus filhos nunca foram roubados, graça a Deus. Por nenhum tipo de violência eles nunca passaram. E agora procurar casa, longe, sem conhecer direito, porque você não vai saber quem é o vizinho do lado. Quando a gente estava aqui a gente sabia quem era e quem não era, e essa é a nossa preocupação maior agora. Temos uma filha de quinze anos, temos uma de nove, e mesmo o filho de vinte, né, que sai pra trabalhar, às vezes pra balada e volta de madrugada. Pelo menos aqui ele já conhece direito. Agora você vai pra uma vila que você não sabe quem é quem. Como que vai se sentir inseguro agora? Você vai sair da sua casa de manhã e vai voltar à noite, você vai saber que a pessoa não vai entrar na sua casa, porque pelo menos aqui um vizinho olha o outro, né. E lá, como que vai ser?

— Além de perder as amizades também.

— Além de perder as amizades… Eu falei pra Julia: “ainda bem que tem o face porque olha…”. A gente falou que vai marcar um dia pra todo mundo se reunir e estar explorando algum lugar do Pico ou algum lugar assim porque tá difícil… Vai ser uma dor eterna pra mim… Como eu disse: você mudar, você querer mudar, sair da sua casa é uma coisa; agora você ser praticamente expulsa é completamente diferente, e a dor é maior. A desvalorização tremenda, não só assim material, mas emocional também. Eles não pensam nisso, não estão pensando nisso. Como vai ser sua vida depois do Rodoanel? Eles só querem a terra, né, só querem o local, mas o que vai ser das pessoas… como é difícil…

— Quer falar mais alguma coisa?

— Vou morrer de saudades desse lugar, sou muito grata a essas pessoas aqui que foram… minha amiga, minha freguesa… Começou como freguesa, depois passou para amiga, depois ficou para irmã assim de coração. Às vezes você tem mais afinidade com as pessoas… são mais amigas do que familiares. Com as amigas assim, com as vizinhas que estão ali no dia, né… Por isso, por estar aqui todo dia, domingo a domingo. Vou sentir muita falta disso. Já falei que não quero comércio porque… não vou querer mais. Outro lugar assim com as pessoas como esse lugar não vai ter, não vou ter confiança total de ficar aqui sozinha… Eu não quero mais.

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Referências Bibliográficas

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p. ...