Sonha agora em morar novamente em sua terra natal.
As palavras foram registradas no dia 17 de março de 2018.
Eu sou do Pernambuco, nasci e me
criei no Pernambuco. Somos em seis irmãos, são quatro homens e duas mulheres.
Minha mãe trabalhava na roça, meu pai não era uma pessoa muito de trabalhar.
Passamos dificuldades. Meu pai não deixava minha mãe trabalhar, minha mãe
sofria muito com meu pai, ele era uma pessoa muito má. Ele nunca judiou de mim,
nunca bateu em mim, mas na minha mãe ele era agressivo. Então mãe descontava
aquela raiva dela em cima dos filhos. Ela não era uma mãe carinhosa, não era
uma mãe de dar conselhos, não era uma mãe de chegar nos filhos e falar com os
filhos, então era uma mãe meio rebelde. Por quê? Porque meu pai judiava dela,
então ela ficou assim, uma pessoa meia revoltada da vida.
Eu
nunca pensei de vim embora para São Paulo. Mas como quem mandava nos filhos
naquele tempo era a mãe, os filhos faziam o que os pais mandavam, então quem decidiu
me mandar embora para São Paulo foi minha mãe. Ela tinha uma conhecida aqui,
perguntou se dava para mim vim, pegou e me mandou. Ela não me perguntou se eu
queria ir, se não queria, só pegou minha passagem e me mandou embora. Não tive
escolha porque ela falou que eu ia embora para São Paulo, e falou que eu tinha
que ir embora. Como ela era uma pessoa que obedecia meu pai, então a gente
tinha que obedecer a ela também. Do jeito que meu pai fazia com ela, ela fazia
com os filhos.
Não tive
oportunidade de ir para a escola porque ela não deixava. Quando começava as
aulas, eu nunca ia, nunca terminava um ano. Meu pai brigava com ela, e aí já
era motivo de não deixar eu ir para escola. Ela falava que quem morava dentro
dos matos não precisava ir para escola, para que mulher ir para a escola, não
tinha motivo. Então ela não deixava. Eu ia uma semana ou duas, ela ficava com
raiva porque brigava com meu pai, e não me deixava ir mais, a briga já era
motivo. Se eu tivesse tipo a oportunidade de ir para a escola, eu queria ter
uma profissão: ser costureira. Fazer vestido para noiva, porque eu gosto muito
de mexer com roupa, costurar, cortar. Não tive essa oportunidade.
Aí
vim embora para São Paulo. Cheguei aqui e fiquei na casa dos outros, aí eu
precisava trabalhar porque ninguém pode ficar na casa de uma pessoa sem
trabalhar, a gente precisa trabalhar para ajudar. Foi isso que aconteceu. Fui
trabalhar, morava na casa de uma senhora (uma senhora muito legal) que era
melhor para mim do que minha mãe. Morei com ela, depois saí do emprego, mas
sempre trabalhei em casa de família. É um serviço que é chato, mas a gente
precisa trabalhar, então tem que trabalhar. Depois trabalhei e morei na casa de
uma senhora durante seis anos. Ganhava pouco, só ganhava para comer mesmo. Para
comprar uma roupa, só podia ser roupa fraca, elas pagavam muito pouco, mas eu
precisava. Aí fui trabalhando e vivendo a vida. Nunca tive vergonha de
trabalhar em casa de família, foi aí que consegui construir minha casa, tenho
orgulho disso. Foi assim que consegui minha casa. Tem gente que mora em São
Paulo há trinta anos e não tem uma casa, e eu tenho. Nunca tive vergonha de
trabalhar, a gente passa raiva, ganha pouco, mesmo assim eu consegui ter minha
casa. Ter uma casa já é tudo. Continuei trabalhando e saí da casa daquela
senhora, fui morar em outra casinha, alugando um quarto e cozinha, já estava
enjoada de morar na casa daquela mulher. Queria morar numa casinha que fosse
minha. Morei lá por dois anos, e aí mesmo morando de aluguel consegui juntar
dinheiro para comprar a minha casa. Morai lá durante uns dezesseis anos, depois
eu saí e fui morar em outro lugar.
Quantos anos tinham quando
veio para cá?
Eu vim para cá
com dezenove anos. Sozinha, eu e deus. Só com a mala e a coragem. Sem conhecer
ninguém, lugar estranho, às vezes tinha medo de como é que ia ser. Mas conheci
muitas pessoas boas. Tinha umas pessoas ruins, mas encontrei gente muita boa no
meu caminho. Não me arrependi não.
Veio
sozinha?
Na rodoviária
já tinha gente me esperando. Eu saí de Pernambuco com uma amiga minha. Eu vim
para a casa da tia dessa amiga minha, aí fiquei lá com ela. Mas eu já vim mesmo
para trabalhar. Cheguei e uma semana depois já comecei a trabalhar. Trabalhei
na casa de um japonês, não gostei e saí, passei oito dias lá. Depois eu fui
trabalhar na casa de outra mulher, passei uns dois anos, e saí. Em seguida trabalhei
na casa dessa senhora, passei uns seis anos trabalhando lá. No Jardim São
Bento.
Eu
trabalhava na casa das outras pessoas e morava também. Só podia voltar para a
casa dessa senhora a cada quinze dias. Aí fui para a casa dessa mulher e só
comia batata com ovo, era para trabalhar de domingo a domingo, não tinha folga.
Eu não quis isso e saí fora. Aí fui para a casa da Dona Rosa. Depois saí e fui
para uma outra casa, que tinha uma criança de dois anos, cuidava dela. Fiqueia
uns dois anos, e saí porque ela falou que eu batia na menina. Eu não batia na
menina. Ela tinha intestino preso, então ela ia para o banheiro e chorava lá. E
a mulher achava que eu batia na menina. As vizinhas ouviam a menina chorar e
achavam que eu batia na menina. Aí a mulher chegou do serviço e disse “ah você
tá batendo na minha filha”, e eu disse “eu não estou batendo. Mas se está
falando que eu estou batendo, vou embora”. A filha da Dona Rosa tinha uma filha
cuja professora estava precisando de uma pessoa para ajudar a mãe dela. Aí eu
fui. Foi nessa casa que eu fiquei uns seis anos. Daí eu conheci o Luis. A gente
namorou durante um ano, mais ou menos. Ele morava de favor, eu morava de favor,
então decidimos alugar um quarto para a gente morar. E fomos trabalhando e
trabalhando e juntando dinheiro, aí a gente conseguiu comprar um terreno lá em
Taipas. Aí fizemos a casa.
Quando a gente se mudou para Taipas, fiquei
sem trabalhar um tempo, e pouco tempo depois voltei a trabalhar como diarista.
Trabalhava na casa de um homem que tinha um restaurante, ele perguntou para mim
se eu queria trabalhar na casa dele. Ela estava sem ninguém para lavar a louça,
fazer faxina. Peguei e fui, fiquei uns dois anos até fechar o restaurante. Era
na Avenida Braz Leme, perto de Santana. Depois fui trabalhar lá na cidade, na
Liberdade, em um restaurante japonês. Foi a Rose que arrumou para mim. Aí
trabalhei lá mais ou menos um mês. Lá era muito pequeno, aí fechou. Daí eu fui
trabalhar no bairro do Cachoeirinha em casa de família. Trabalhei uns dois anos.
A mulher me mandou embora porque ia pagar a faculdade para a filha dela. Era ou
eu ou a faculdade da filha. Daí arrumei emprego onde estou hoje. Quem arrumou
foi o Luis, ele trabalhava de porteiro. E daí ficou, até hoje.
Como era São Paulo quando chegou?
Quando
cheguei aqui há vinte e oito anos não tinha o que tem hoje. Não tinha essas
drogas que tem hoje, você podia andar na rua que não tinha perigo. Se você
saísse na rua e tivesse alguém usando droga, a pessoa se escondia para ninguém
ver. Não queria que as pessoas vissem que ele estava usando. Não tinha os
assaltos que tem hoje, as pessoas matando igual hoje. Tinha mortes, mas não
igual é hoje. Era bem melhor. Melhor para tudo.
Ditadura.
Não
lembro. Acho que eu estava no Norte. Não tinha polícia, a gente morava dentro
do mato. Só se passava nas cidades, mas lá onde eu morava não tinha.
Seca
Teve uma seca
lá muito triste que muita gente passou fome. Não cheguei a passar fome, mas a
situação ficou apertada, foi difícil. Não tinha água para beber. Não tinha água
para nada. Aí o prefeito inventou uma tal de emergência. Pegava um lugar seco e
dava para as pessoas começarem a cavar. Mulher e homem. A mulher cavava e o
homem tirava a terra. Para quê? As pessoas recebiam pagamento e cesta básica.
Mas o arroz não prestava, feijão não prestava; era para pessoa que estava bem
na pior mesmo. O buraco era para quando chovesse, juntasse água. Mas era um
jeito que tinha de as pessoas ganharem dinheiro. A cesta era feijão, farinhosa
grossa ruim, óleo, café, açúcar, leite. O que ajudou minha mãe a se aposentar
foi o trabalho na emergência. Eles davam comprovante de trabalho, e esse
documento a ajudou a se aposentar.
Era
todo dia, de segunda a sexta, das sete até às quatro horas. Era homem e mulher,
tudo junto. Durou um ano, enquanto chovia. Homem, mulher, criança; se o pai não
fosse, podia mandar uma criança, mesmo que não fosse trabalhar. Quando o fiscal
aparecesse, tinha que marcar presença. O buraco era para os animais tomarem
água. Para os moradores tinha os açudes, com água mais limpa. A seca foi
difícil para todo mundo.
Com
os documentos que mãe pegou trabalhando nesse lugar serviu para mãe se
aposentar mais rápido.
Lembrança mais antiga
A lembrança
mais antiga que tenho, uma lembrança muito boa, que não esqueço até hoje, sinto
saudades, é da minha avó. A mãe do meu pai. Eu ia para casa dela, mais meu pai,
e ela era uma vó maravilhosa. Outra lembrança que tenho era quando eu tinha dez
anos, que eu ia para a casa da minha madrinha. Ia eu, minha mãe, meus irmãos
pequenos.
A
mãe de minha mãe não era uma pessoa boa, não tenho lembranças dela não. Era uma
pessoa muito ignorante. Ela não sabia tratar bem os netos, nem abençoar os
netos ela sabia. Os netos vão para a casa dos avós e gostam de serem bem
tratados. E ela não travava nenhum neto bem. Você dava benção para ela e ela
nem respondia. Nem as filhas gostavam dela.
Quando
voltei para o nordeste quatro anos atrás fiz questão de passar na casa da minha
avó. Não mudou muito, a casa dela foi derrubada, ela tem roçado no terreno.
Lá
no [interior do] Nordeste não muda não, continua a mesma coisa. Pode passar
dez, cincos anos, se você voltar lá é a mesma coisa. Muda assim, porque as
pessoas que moravam no sítio não moram mais, muita gente foi embora para a
cidade. Se torna um lugar sem casas, sem pessoas. Mora pouca gente.
Dia a dia na infância e adolescência
Eu ficava em
casa, saia muito pouco. Às vezes eu saia escondida da minha mãe, ela não me
deixava sair. Mas ficava mais em casa. Ia caçar lenha para fazer comida, não
tinha fogão a gás, era tudo cozinhado a lenha. Eu carregava água na cabeça, não
tinha água encanada. Meu dia era esse em casa. Não saia muito porque minha mãe
não me deixava sair de casa.
Escola
não ia porque minha mãe não me deixava ir. As aulas começam e eu não terminava
as aulas porque bastava ela ficar com raiva de alguma coisa que já não me
deixava ir. Se ela me mandasse varrer a casa e não fizesse direito, era motivo
para não me deixar ir à escola. A gente ia para a casa do meu avô e ela voltava
de lá com raiva, e isso já era motivo para não deixar eu ir para a escola. Vontade que eu tinha de ir era uma escola de
costura. Tinha uma mulher que dava aula de costura. Você levava um jornal e
cortava um desenho no jornal. Ela fazia o desenho do vestido e você cortava
ali. Eu tinha muita vontade de ir para a escola aprender a costurar. Mas minha
mãe não deixava. Meu pai era ruim, mas minha mãe era pior. Uma que ela tinha
medo dele, outra era que ela vivia de baixo do pé dele. Ela tinha muito medo de
meu pai. A raiva e medo que ela sentia do meu pai ela descontava nos filhos. Até
hoje ela sofre com isso. Parece que a felicidade de uma pessoa a incomoda. Mãe
não foi uma pessoa feliz, ela não sabe o que é a felicidade. Ela é feliz hoje
porque meu pai morreu, então aquele sofrimento dela acabou. Mas ela é uma
pessoa amarga, ela não gosta de ver as pessoas sorrindo. Ela não foi feliz na
vida dela, porque se ela descobrir a felicidade, será uma pessoa diferente. Ela
não chega a dar conselhos, não fala uma palavra legal para você. Meu irmão
disse que mãe nunca chegou nele para dar um conselho, mas só criticava. Ela
gosta de criticar as pessoas. É mais fácil ela dar conselho para derrubar você.
Por que ela é uma pessoa assim? Porque minha avó era uma pessoa ignorante. Aí
minha mãe casou com meu pai, que também era ignorante, e batia nela, assim como
minha avó. Então desde que nasceu, ela viveu naquele mundo da ignorância. Tem
palavras de amor e carinho que a incomodam. Tanto que ela não conversa com você
olho-no-olho. Ela conversa com você de cabeça baixa. Perdi muita coisa por
causa dela.
Eu
brincava de boneca, de casinha. Eu tinha casinha de boneca. Fazia roupinha para
boneca. Eu gostava de fazer as roupas nas minhas bonecas. Eu cortava os
vestidos e costurava no corpo das bonecas os modelos que eu queria, do meu
jeito. Sempre gostei de mexer com roupa.
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