quinta-feira, 26 de abril de 2018

ENTREVISTA: com a palavra e a sua história, Zenilda

Zenilda morou até os 19 anos no interior do interior de Pernambuco próxima a cidade de Jucati. Como ela diz, “nos matos”. Foi para a cidade São Paulo e conheceu o Luis. Tiveram um único filho, eu. Construíram uma casa em Taipas. Com meus dez anos, se separaram. Ela passou por diversos empregos, mudanças de casa, privações e problemas de saúde.
Sonha agora em morar novamente em sua terra natal.

As palavras foram registradas no dia 17 de março de 2018. 




Eu sou do Pernambuco, nasci e me criei no Pernambuco. Somos em seis irmãos, são quatro homens e duas mulheres. Minha mãe trabalhava na roça, meu pai não era uma pessoa muito de trabalhar. Passamos dificuldades. Meu pai não deixava minha mãe trabalhar, minha mãe sofria muito com meu pai, ele era uma pessoa muito má. Ele nunca judiou de mim, nunca bateu em mim, mas na minha mãe ele era agressivo. Então mãe descontava aquela raiva dela em cima dos filhos. Ela não era uma mãe carinhosa, não era uma mãe de dar conselhos, não era uma mãe de chegar nos filhos e falar com os filhos, então era uma mãe meio rebelde. Por quê? Porque meu pai judiava dela, então ela ficou assim, uma pessoa meia revoltada da vida.
               Eu nunca pensei de vim embora para São Paulo. Mas como quem mandava nos filhos naquele tempo era a mãe, os filhos faziam o que os pais mandavam, então quem decidiu me mandar embora para São Paulo foi minha mãe. Ela tinha uma conhecida aqui, perguntou se dava para mim vim, pegou e me mandou. Ela não me perguntou se eu queria ir, se não queria, só pegou minha passagem e me mandou embora. Não tive escolha porque ela falou que eu ia embora para São Paulo, e falou que eu tinha que ir embora. Como ela era uma pessoa que obedecia meu pai, então a gente tinha que obedecer a ela também. Do jeito que meu pai fazia com ela, ela fazia com os filhos.
Não tive oportunidade de ir para a escola porque ela não deixava. Quando começava as aulas, eu nunca ia, nunca terminava um ano. Meu pai brigava com ela, e aí já era motivo de não deixar eu ir para escola. Ela falava que quem morava dentro dos matos não precisava ir para escola, para que mulher ir para a escola, não tinha motivo. Então ela não deixava. Eu ia uma semana ou duas, ela ficava com raiva porque brigava com meu pai, e não me deixava ir mais, a briga já era motivo. Se eu tivesse tipo a oportunidade de ir para a escola, eu queria ter uma profissão: ser costureira. Fazer vestido para noiva, porque eu gosto muito de mexer com roupa, costurar, cortar. Não tive essa oportunidade.

               Aí vim embora para São Paulo. Cheguei aqui e fiquei na casa dos outros, aí eu precisava trabalhar porque ninguém pode ficar na casa de uma pessoa sem trabalhar, a gente precisa trabalhar para ajudar. Foi isso que aconteceu. Fui trabalhar, morava na casa de uma senhora (uma senhora muito legal) que era melhor para mim do que minha mãe. Morei com ela, depois saí do emprego, mas sempre trabalhei em casa de família. É um serviço que é chato, mas a gente precisa trabalhar, então tem que trabalhar. Depois trabalhei e morei na casa de uma senhora durante seis anos. Ganhava pouco, só ganhava para comer mesmo. Para comprar uma roupa, só podia ser roupa fraca, elas pagavam muito pouco, mas eu precisava. Aí fui trabalhando e vivendo a vida. Nunca tive vergonha de trabalhar em casa de família, foi aí que consegui construir minha casa, tenho orgulho disso. Foi assim que consegui minha casa. Tem gente que mora em São Paulo há trinta anos e não tem uma casa, e eu tenho. Nunca tive vergonha de trabalhar, a gente passa raiva, ganha pouco, mesmo assim eu consegui ter minha casa. Ter uma casa já é tudo. Continuei trabalhando e saí da casa daquela senhora, fui morar em outra casinha, alugando um quarto e cozinha, já estava enjoada de morar na casa daquela mulher. Queria morar numa casinha que fosse minha. Morei lá por dois anos, e aí mesmo morando de aluguel consegui juntar dinheiro para comprar a minha casa. Morai lá durante uns dezesseis anos, depois eu saí e fui morar em outro lugar.
Quantos anos tinham quando veio para cá?
Eu vim para cá com dezenove anos. Sozinha, eu e deus. Só com a mala e a coragem. Sem conhecer ninguém, lugar estranho, às vezes tinha medo de como é que ia ser. Mas conheci muitas pessoas boas. Tinha umas pessoas ruins, mas encontrei gente muita boa no meu caminho. Não me arrependi não.
Veio sozinha?
Na rodoviária já tinha gente me esperando. Eu saí de Pernambuco com uma amiga minha. Eu vim para a casa da tia dessa amiga minha, aí fiquei lá com ela. Mas eu já vim mesmo para trabalhar. Cheguei e uma semana depois já comecei a trabalhar. Trabalhei na casa de um japonês, não gostei e saí, passei oito dias lá. Depois eu fui trabalhar na casa de outra mulher, passei uns dois anos, e saí. Em seguida trabalhei na casa dessa senhora, passei uns seis anos trabalhando lá. No Jardim São Bento.
               Eu trabalhava na casa das outras pessoas e morava também. Só podia voltar para a casa dessa senhora a cada quinze dias. Aí fui para a casa dessa mulher e só comia batata com ovo, era para trabalhar de domingo a domingo, não tinha folga. Eu não quis isso e saí fora. Aí fui para a casa da Dona Rosa. Depois saí e fui para uma outra casa, que tinha uma criança de dois anos, cuidava dela. Fiqueia uns dois anos, e saí porque ela falou que eu batia na menina. Eu não batia na menina. Ela tinha intestino preso, então ela ia para o banheiro e chorava lá. E a mulher achava que eu batia na menina. As vizinhas ouviam a menina chorar e achavam que eu batia na menina. Aí a mulher chegou do serviço e disse “ah você tá batendo na minha filha”, e eu disse “eu não estou batendo. Mas se está falando que eu estou batendo, vou embora”. A filha da Dona Rosa tinha uma filha cuja professora estava precisando de uma pessoa para ajudar a mãe dela. Aí eu fui. Foi nessa casa que eu fiquei uns seis anos. Daí eu conheci o Luis. A gente namorou durante um ano, mais ou menos. Ele morava de favor, eu morava de favor, então decidimos alugar um quarto para a gente morar. E fomos trabalhando e trabalhando e juntando dinheiro, aí a gente conseguiu comprar um terreno lá em Taipas. Aí fizemos a casa.
                Quando a gente se mudou para Taipas, fiquei sem trabalhar um tempo, e pouco tempo depois voltei a trabalhar como diarista. Trabalhava na casa de um homem que tinha um restaurante, ele perguntou para mim se eu queria trabalhar na casa dele. Ela estava sem ninguém para lavar a louça, fazer faxina. Peguei e fui, fiquei uns dois anos até fechar o restaurante. Era na Avenida Braz Leme, perto de Santana. Depois fui trabalhar lá na cidade, na Liberdade, em um restaurante japonês. Foi a Rose que arrumou para mim. Aí trabalhei lá mais ou menos um mês. Lá era muito pequeno, aí fechou. Daí eu fui trabalhar no bairro do Cachoeirinha em casa de família. Trabalhei uns dois anos. A mulher me mandou embora porque ia pagar a faculdade para a filha dela. Era ou eu ou a faculdade da filha. Daí arrumei emprego onde estou hoje. Quem arrumou foi o Luis, ele trabalhava de porteiro. E daí ficou, até hoje.  
  Como era São Paulo quando chegou?
               Quando cheguei aqui há vinte e oito anos não tinha o que tem hoje. Não tinha essas drogas que tem hoje, você podia andar na rua que não tinha perigo. Se você saísse na rua e tivesse alguém usando droga, a pessoa se escondia para ninguém ver. Não queria que as pessoas vissem que ele estava usando. Não tinha os assaltos que tem hoje, as pessoas matando igual hoje. Tinha mortes, mas não igual é hoje. Era bem melhor. Melhor para tudo.
Ditadura.
               Não lembro. Acho que eu estava no Norte. Não tinha polícia, a gente morava dentro do mato. Só se passava nas cidades, mas lá onde eu morava não tinha.  

Seca
               Teve uma seca lá muito triste que muita gente passou fome. Não cheguei a passar fome, mas a situação ficou apertada, foi difícil. Não tinha água para beber. Não tinha água para nada. Aí o prefeito inventou uma tal de emergência. Pegava um lugar seco e dava para as pessoas começarem a cavar. Mulher e homem. A mulher cavava e o homem tirava a terra. Para quê? As pessoas recebiam pagamento e cesta básica. Mas o arroz não prestava, feijão não prestava; era para pessoa que estava bem na pior mesmo. O buraco era para quando chovesse, juntasse água. Mas era um jeito que tinha de as pessoas ganharem dinheiro. A cesta era feijão, farinhosa grossa ruim, óleo, café, açúcar, leite. O que ajudou minha mãe a se aposentar foi o trabalho na emergência. Eles davam comprovante de trabalho, e esse documento a ajudou a se aposentar.
               Era todo dia, de segunda a sexta, das sete até às quatro horas. Era homem e mulher, tudo junto. Durou um ano, enquanto chovia. Homem, mulher, criança; se o pai não fosse, podia mandar uma criança, mesmo que não fosse trabalhar. Quando o fiscal aparecesse, tinha que marcar presença. O buraco era para os animais tomarem água. Para os moradores tinha os açudes, com água mais limpa. A seca foi difícil para todo mundo.
               Com os documentos que mãe pegou trabalhando nesse lugar serviu para mãe se aposentar mais rápido.  
Lembrança mais antiga
               A lembrança mais antiga que tenho, uma lembrança muito boa, que não esqueço até hoje, sinto saudades, é da minha avó. A mãe do meu pai. Eu ia para casa dela, mais meu pai, e ela era uma vó maravilhosa. Outra lembrança que tenho era quando eu tinha dez anos, que eu ia para a casa da minha madrinha. Ia eu, minha mãe, meus irmãos pequenos.
               A mãe de minha mãe não era uma pessoa boa, não tenho lembranças dela não. Era uma pessoa muito ignorante. Ela não sabia tratar bem os netos, nem abençoar os netos ela sabia. Os netos vão para a casa dos avós e gostam de serem bem tratados. E ela não travava nenhum neto bem. Você dava benção para ela e ela nem respondia. Nem as filhas gostavam dela.
               Quando voltei para o nordeste quatro anos atrás fiz questão de passar na casa da minha avó. Não mudou muito, a casa dela foi derrubada, ela tem roçado no terreno.
               Lá no [interior do] Nordeste não muda não, continua a mesma coisa. Pode passar dez, cincos anos, se você voltar lá é a mesma coisa. Muda assim, porque as pessoas que moravam no sítio não moram mais, muita gente foi embora para a cidade. Se torna um lugar sem casas, sem pessoas. Mora pouca gente.
Dia a dia na infância e adolescência 
 
               Eu ficava em casa, saia muito pouco. Às vezes eu saia escondida da minha mãe, ela não me deixava sair. Mas ficava mais em casa. Ia caçar lenha para fazer comida, não tinha fogão a gás, era tudo cozinhado a lenha. Eu carregava água na cabeça, não tinha água encanada. Meu dia era esse em casa. Não saia muito porque minha mãe não me deixava sair de casa.
               Escola não ia porque minha mãe não me deixava ir. As aulas começam e eu não terminava as aulas porque bastava ela ficar com raiva de alguma coisa que já não me deixava ir. Se ela me mandasse varrer a casa e não fizesse direito, era motivo para não me deixar ir à escola. A gente ia para a casa do meu avô e ela voltava de lá com raiva, e isso já era motivo para não deixar eu ir para a escola.  Vontade que eu tinha de ir era uma escola de costura. Tinha uma mulher que dava aula de costura. Você levava um jornal e cortava um desenho no jornal. Ela fazia o desenho do vestido e você cortava ali. Eu tinha muita vontade de ir para a escola aprender a costurar. Mas minha mãe não deixava. Meu pai era ruim, mas minha mãe era pior. Uma que ela tinha medo dele, outra era que ela vivia de baixo do pé dele. Ela tinha muito medo de meu pai. A raiva e medo que ela sentia do meu pai ela descontava nos filhos. Até hoje ela sofre com isso. Parece que a felicidade de uma pessoa a incomoda. Mãe não foi uma pessoa feliz, ela não sabe o que é a felicidade. Ela é feliz hoje porque meu pai morreu, então aquele sofrimento dela acabou. Mas ela é uma pessoa amarga, ela não gosta de ver as pessoas sorrindo. Ela não foi feliz na vida dela, porque se ela descobrir a felicidade, será uma pessoa diferente. Ela não chega a dar conselhos, não fala uma palavra legal para você. Meu irmão disse que mãe nunca chegou nele para dar um conselho, mas só criticava. Ela gosta de criticar as pessoas. É mais fácil ela dar conselho para derrubar você. Por que ela é uma pessoa assim? Porque minha avó era uma pessoa ignorante. Aí minha mãe casou com meu pai, que também era ignorante, e batia nela, assim como minha avó. Então desde que nasceu, ela viveu naquele mundo da ignorância. Tem palavras de amor e carinho que a incomodam. Tanto que ela não conversa com você olho-no-olho. Ela conversa com você de cabeça baixa. Perdi muita coisa por causa dela.
               Eu brincava de boneca, de casinha. Eu tinha casinha de boneca. Fazia roupinha para boneca. Eu gostava de fazer as roupas nas minhas bonecas. Eu cortava os vestidos e costurava no corpo das bonecas os modelos que eu queria, do meu jeito. Sempre gostei de mexer com roupa.

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Referências Bibliográficas

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p. ...